A cerveja e os anúncios

Não sou, por norma, consumidor de bebidas alcoólicas e confesso que a cerveja nunca foi uma bebida propriamente apelativa, não sei bem se devido ao seu aspecto a xixi meio turvo, se ao cheiro delicodoce ou devido ao seu gosto acre. Ou talvez sou eu que sou esquisito.
Mais absurdo do que o facto desta ser uma das bebidas mais consumidas por todo o mundo sempre foram os anúncios a este "nectar" do gregório. Estes anúncios sempre foram uma espécie de clips musicais alegres, com muita gente jovem a conversar imenso e a dançar num ritmo que é minimamente correcto, durante noites e dias. São de certa forma a visualização de uma eterna farra.
O problema é que toda esta imagética nunca me fez lá grande sentido já que, e isto sabe-o qualquer pessoa que tenha dado uma volta pelo Bairro Alto numa sexta-feira por volta da 1 da manhã, se há uma coisa que a cerveja não provoca são conversas coerentes e muito menos um qualquer acrescento rítmico. Bem pelo contrário.

E eis que surge o último anúncio à Super Bock e finalmente, quando penso que é apenas mais um igual a tantos outros, me surpreendem com a brilhante escolha musical. Ao utilizarem a música da Brandi Carlie (The Story) conseguiram algo que nunca qualquer outro anúncio a uma cerveja tuga conseguiu: finalmente há algo que realmente se assemelha à experiência que todos bem conhecemos de beber cerveja: o tentar cantar e nós acharmos que estamos a ser espectaculares, a conseguir chegar a todas as notas, conseguindo cada tom na perfeição quando na realidade...
É que esta senhora consegue a proeza de cantar como se estivesse realmente embriagada e isso só por si é brilhante.
Será que para o ano alguma marca terá coragem de fazer um anúncio mostrando apenas os efeitos reais da cerveja? Eis o meu anúncio de sonho, baseando-me obviamente no conceito que eles gostam - o conceito de Mega-Festa, juventude e diversão:

A filmagem é incrivelmente suave e delicada. As cores são fortes e guerridas mas sempre com um efeito blur que, brilhantemente manipulado, esbate os focos de luz e dá às imagens apenas um brilho como se fosse a própria imagem a estar suada devido ao calor da festa a que estamos a assistir.

Vemos corpos jovens a dançar, cada um no seu ritmo próprio, ao som de uma qualquer música que está a passar, na cabeça de cada um é claro. Foca-se os corpos "dançantes" de cima para baixo e há um grande plano das barrigas de cerveja a baloiçar na pista de dança. Algumas barrigas tocam-se como se se de um beijo se tratasse. Foca-se os sorrisos embriagados de um casal no momento que se segue ao toque das barrigas. Ele olha para ela e ela para ele. Beijam-se e assistimos ao beijo mais repugnante da história: enquanto ele a beija no queixo, ela abocanha o nariz dele, sem reparar que devido ao ar abafado do bar a sinusite dele já estava a dar sinal na forma de um imenso mar de ranhoca. Mas não há problema. Trocam um olhar cúmplice de como quem diz "Eu sei que tu sabes que eu sei o que aconteceu mas o meu cérebro ainda não percebeu e portanto o que é que eu 'tou a pensar e olha lá as mamas desta gaja!" e saem do bar.

À volta do nosso casal os seus diversos amigos riem e continuam a "dançar". Mexem-se de um modo tão frenético que nos fazem pensar que, se calhar, estamos a contemplar um brutal ataque colectivo de epilepsia. Ou então que estamos perante uma peça de dança contemporânea. Uma das duas.
O nosso casal sai do bar e vomita para a calçada. A câmara desce e verificamos que afinal não foi para a calçada mas para cima de outro tipo que entretanto colapsou bêbado e que, coberto de vómito, nem reacção tem. O nosso casal ri-se do seu companheiro de bebedeira caído e dirige-se para uma paragem de táxis - porque afinal de contas tem de haver a mensagem social não é?

Entram no táxi, não sem antes do rapaz rasgar parte do vestido à rapariga numa tentativa algo grotesca de cavalheirismo e beijam-se novamente. O taxista encolhe os ombros e finalmente percebe o que é o mítico "odor corporal". Pergunta ao casal para onde querem ir. Repete a pergunta. Volta a perguntar.
O nosso casal, à quarta tentativa diga-se de passagem, julga que já disse para onde quer ir mas na realidade apenas conseguiu balbuciar algo como "Ruachmarlionzorg ohfashavor!". Foca-se a cara do taxista já enfadado com a situação. O táxi arranca.

Fade out.

Fade in.

Manhã.
Estamos num quarto completamente desarrumado. Há roupa espalhada por todo o lado. Alguém abre a porta do quarto. É um senhor com alguma idade (45 anos). Dirije-se à cama e retira o lençol que cobre os dois jovens. Foca-se a cara do senhor a ficar vermelha.

Ecrã negro.

Ouvimos:
"Pedro! O que é que a tua irmã está a fazer nua na tua cama?"

Entra o packshot.

The End
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